Quanto ganha um médico por plantão em 2026: a referência, os cortes e o piso em disputa
A referência de remuneração da FENAM para 2026 é de R$ 3.168 por plantão de 12 horas. É referência de entidade de classe, não piso legal: o que o mercado paga varia por região, especialidade e tipo de serviço.
O piso salarial que existe em lei está congelado há anos e perdeu conexão com o valor real do plantão, o que deixou a negociação na mão de cada contratante.
2026 trouxe uma onda de cortes. Em Porto Alegre, médicos de 67 unidades entraram em greve contra uma redução de cerca de 30%; meses antes, Goiânia passou pelo mesmo embate.
Para comparar propostas, o número que decide é o valor por hora, não o valor do plantão. Um plantão de 24h mais bem pago pode render menos por hora que um de 12h.
Em 30 de junho de 2026, os médicos de 67 unidades de saúde de Porto Alegre entraram em greve contra um corte de cerca de 30% na remuneração. Meses antes, o mesmo embate tinha acontecido em Goiânia. Para responder quanto se ganha por plantão em 2026, é preciso olhar primeiro o que está acontecendo com esse valor.
São quatro números que raramente aparecem juntos: o piso que a lei prevê, a referência que as entidades médicas publicam, o que os hospitais de fato pagam e o que as prefeituras estão cortando. Ao mesmo tempo, o Congresso discute um piso novo.
O piso que existe no papel (e está congelado)
Desde 1961, a Lei 3.999 fixa o salário do médico em três salários mínimos. O STF reconheceu a lei como constitucional, mas congelou os valores: a Constituição de 1988 proíbe vincular salário ao mínimo, então o piso legal parou no tempo e hoje está defasado. Virou letra morta.
Diante disso, a FENAM (Federação Nacional dos Médicos) passou a publicar a própria referência, corrigida anualmente pelo INPC.
A referência da FENAM (2026)
| Referência FENAM 2026 (reajuste INPC de 3,9%) | Valor |
|---|---|
| Plantão de 12 horas | R$ 3.168,38 |
| Hora trabalhada | R$ 264,03 |
| Consulta | R$ 259,39 |
| Piso mensal (20h semanais) | R$ 21.122,56 |
A própria FENAM faz a ressalva: são valores de referência para negociações e contratos, não um piso de cumprimento obrigatório. Para os honorários por procedimento, a referência é a CBHPM, da Associação Médica Brasileira (AMB), a mesma tabela que vira glosa quando o convênio paga abaixo dela. Entidades estaduais, como a AMRIGS no Rio Grande do Sul e a ACM em Santa Catarina, defendem a adoção desses parâmetros.
O que o mercado realmente paga
Um plantão de 12 horas costuma sair por R$ 1.200 a R$ 2.000, perto da metade da referência da FENAM. E não é estimativa solta: a tabela que a Prefeitura de Goiânia propôs aos plantonistas, já com o corte aplicado, cai exatamente nessa faixa.
| Goiânia — tabela proposta (plantão de 12h, seg–sex) | Valor |
|---|---|
| Clínico generalista (pronto atendimento) | R$ 1.200 |
| Clínico na sala vermelha | R$ 1.600 |
| Pediatra, ortopedista, cirurgião, anestesista | R$ 1.800 |
Ao lado da referência da FENAM, de R$ 3.168 por 12 horas, a diferença salta aos olhos. E é esse valor, já baixo, que entrou na mira das prefeituras.
A onda de cortes
Goiânia (2025). Em julho, a Prefeitura propôs reduzir em 30% o valor dos plantões, com a tabela acima. O Conselho Municipal de Saúde rejeitou, mas em novembro a gestão publicou um edital de credenciamento que corta de 15% a 35%, obrigando os médicos a assinar um aditivo para seguir trabalhando. O SIMEGO, sindicato da categoria em Goiás, chamou de "alerta máximo" e prometeu acionar o Ministério Público, o Tribunal de Contas dos Municípios e a paralisação. A Secretaria de Saúde alega que a cidade pagava cerca de 30% acima de outras capitais e que o corte economizaria R$ 2 milhões por mês. (Mais Goiás, Jornal Opção)
Porto Alegre (2026). As 67 unidades das zonas Leste e Norte, até então administradas pela Santa Casa e pela Divina Providência, passam em julho de 2026 para o IAG (Instituto de Apoio à Gestão Pública), com corte de cerca de 30% para os médicos e de até 60% para outras categorias da saúde. O SIMERS levou o caso ao Cremers, entrou na Justiça contra a licitação, e a categoria parou em 30 de junho de 2026. (SIMERS)
Nos dois casos, a mecânica é a mesma: a gestão troca o operador, o novo contrato paga menos, e quem absorve é o médico, quase sempre terceirizado e sem a proteção da CLT.
A reação no Congresso: um piso novo
Na direção oposta dos cortes municipais, o Senado aprovou, em 10 de junho de 2026, o PL 1.365/2022, que cria um piso nacional de R$ 13.662 para o médico em jornada de 20 horas semanais. O valor é reajustado pelo IPCA e custeado pelo Fundo Nacional de Saúde, de modo que estados e municípios não arquem com o aumento. O texto ainda eleva o adicional noturno de 20% para 50% e seguiu para a Câmara dos Deputados.
Até a nova lei valer, porém, o piso que conta é o do seu contrato. Por isso o número mais importante não é o da lei, é o seu.
O número que decide: o R$/hora
O valor cheio do plantão engana. Quem mostra se um plantão compensa, ou se um corte é aceitável, é o valor por hora.
| Valor | Horas | R$/hora | |
|---|---|---|---|
| Referência FENAM | R$ 3.168 | 12h | R$ 264 |
| Plantão de mercado | R$ 1.500 | 12h | R$ 125 |
| Plantão de 24h | R$ 2.800 | 24h | R$ 117 |
O plantão "mais caro" da lista, o de 24 horas, é o que paga pior por hora, e todos estão bem abaixo da referência. Quando chega uma proposta, ou um corte como os de Goiânia e Porto Alegre, é o R$/hora que permite responder com calma, em vez de no impulso.
Quanto disso realmente vira renda
O valor do plantão é o teto, não o que entra na conta. Antes de virar renda, ele passa por:
- Imposto — plantão de autônomo entra no carnê-leão; de PJ, na alíquota do seu regime.
- Atraso e calote — o pagamento terceirizado que não cai.
- A renda que não vira reserva — o assunto de fundo de quem vive de plantão: por que o médico de renda alta não se aposenta.
E, para enxergar o plantão dentro da fotografia maior da profissão, os dados do IR de 2026 mostram quanto os médicos ganham e acumulam hoje, e quanto isso mudou na última década.
Como o MedFIN te dá o seu número real
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Assim, o "quanto eu ganho por plantão" deixa de ser uma sensação e vira número: por hospital, por hora, pago e a receber. É o que você precisa ter à mão quando a proposta mudar.
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Quanto você ganhou de plantão neste mês — por hora?
Se a resposta não é imediata, é esse número que o MedFIN te dá.
Perguntas frequentes
Quanto vale um plantão de 12 horas pela referência da FENAM em 2026?
A FENAM divulgou, para 2026, um valor de referência de R$ 3.168,38 para o plantão de 12 horas (R$ 264,03 por hora), além de um piso mensal de R$ 21.122,56 para 20 horas semanais, com reajuste de 3,9% pelo INPC. A própria FENAM esclarece que são valores de referência para negociações e contratos, não um piso de cumprimento obrigatório. Na prática, o mercado paga bem abaixo desses valores.
Existe um piso salarial obrigatório para o médico?
O piso legal vem da Lei 3.999/1961, que fixou o salário médico em três salários mínimos. O STF reconheceu a lei como constitucional, mas congelou os valores, já que a Constituição de 1988 proíbe vincular salário ao salário mínimo — então esse piso ficou defasado. Por isso a FENAM publica uma referência corrigida pelo INPC. Em paralelo, o Senado aprovou em junho de 2026 o PL 1.365/2022, que cria um novo piso de R$ 13.662 para 20 horas semanais, reajustado pelo IPCA e custeado pelo Fundo Nacional de Saúde; o texto seguiu para a Câmara dos Deputados.
Quanto o mercado realmente paga por um plantão de 12 horas?
Em média, entre R$ 1.200 e R$ 2.000 — cerca da metade da referência da FENAM. A tabela que a Prefeitura de Goiânia propôs aos plantonistas, por exemplo, prevê R$ 1.200 para o clínico generalista de 12 horas, R$ 1.600 na sala vermelha e R$ 1.800 para pediatra, ortopedista e anestesista. UTI e especialidades críticas pagam mais; UPA e rede pública, menos. Não há piso legal obrigatório por plantão avulso: vale o valor combinado em contrato.
Por que o valor dos plantões está caindo em 2026?
Por uma onda de cortes na rede pública. Em Goiânia, um edital de credenciamento reduziu de 15% a 35% o valor dos plantões a partir de novembro de 2025. Em Porto Alegre, 67 unidades de saúde passaram a um novo gestor, o IAG, com corte de cerca de 30% para os médicos, o que levou o SIMERS à greve em 30 de junho de 2026. O padrão se repete: troca-se o operador, o novo contrato paga menos, e o médico terceirizado absorve o corte.
Como calcular o valor por hora (R$/hora) de um plantão?
Divida o valor do plantão pela quantidade de horas. Um plantão de 12 horas a R$ 1.500 rende R$ 125 por hora; um de 24 horas a R$ 2.800 rende cerca de R$ 117 por hora — ou seja, o de 24 horas costuma pagar pior por hora. É o R$/hora que permite comparar propostas de hospitais diferentes e avaliar se um corte vale a pena. O MedFIN calcula o total a partir do valor por hora na hora de lançar o plantão.
Quanto ganha um médico por plantão de 24 horas?
Pela referência da FENAM (R$ 264,03 por hora em 2026), um plantão de 24 horas valeria cerca de R$ 6.336. No mercado, o valor anunciado costuma ser bem menor e raramente é o dobro do plantão de 12 horas do mesmo serviço: um plantão de 24 horas a R$ 2.800, por exemplo, rende cerca de R$ 117 por hora, menos do que um de 12 horas a R$ 1.500 (R$ 125 por hora). Por isso a comparação certa entre propostas é sempre pelo R$/hora, não pelo valor cheio do plantão.
Quanto ganha um cirurgião geral por plantão?
Não existe tabela nacional por especialidade. Na tabela que a Prefeitura de Goiânia propôs aos plantonistas, o cirurgião aparece no mesmo grupo de pediatra, ortopedista e anestesista, a R$ 1.800 pelo plantão de 12 horas, contra R$ 1.200 do clínico generalista. Serviços privados, UTI e retaguarda cirúrgica costumam pagar acima disso, e a referência da FENAM (R$ 3.168 por 12 horas) não distingue especialidade. O valor real é o do contrato de cada serviço.
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